Livro Onde Moram
Nossas Lutas

O Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul – PACS e as coletividades¹ parceiras compreendem que a autogestão é mais do que uma forma de organização social. Ela consiste em uma metodologia de ação política e social que fomenta e promove autonomia nos territórios. Queremos aqui apresentar essa metodologia a partir da forma como temos trabalhado ao longo de uma década de construção do Processo Formativo do Autogestão. E que forma melhor de fazer isso, senão uma publicação que sistematiza essa prática? É nesse contexto que este produto surge, contribuindo para negritar a relevância da autogestão nos processos de transformação social.
As coletividades parceiras e o PACS vêm impulsionando formações na temática da autogestão desde 2015. Caminhamos de modo estreito com o conceito de autogestão, especialmente nos campos da gestão democrática, da economia solidária e da prática autogestionária. É um acúmulo que permite refletir sobre conquistas e desafios de trabalhar esse tema.
O aprendizado coletivo construído ao longo destes 10 anos baseia-se nas experiências dos movimentos populares e dos saberes e práticas das mulheres e dos povos e comunidades tradicionais. Tais elementos, preservados pela memória e pela continuidade de estratégias ancestrais das lutas sociais, são fundamentais para a construção de forças contra-hegemônicas² desde o Sul Global.
A partir do acompanhamento de tantas lutas por direitos e soberania popular, percebemos que a transformação social é indissociável da criação de alternativas locais e territoriais para o enfrentamento às desigualdades. Assim, é imprescindível o desenvolvimento de processos de autogestão que deem conta da autonomia e da atuação coletiva nos territórios, enquanto bases da atuação e das reflexões desenvolvidas pelo PACS.
Por serem espaços de luta, resistência e criação, não se pode falar em transformação social sem compreender o papel dos ambientes em que essas lutas estão inscritas, e que aqui são tratados como territórios. A partir desses, surgem as formas de organização popular e as alternativas de vida que desafiam o modelo de desenvolvimento capitalista. O território está, portanto, diretamente articulado à autogestão.
A autogestão propõe alternativas ao modelo de desenvolvimento hegemônico e às suas estruturas de poder, buscando transformar relações de produção, cuidado e gestão em espaços coletivos e horizontais. Sua compreensão pode ser diversal e assumir diferentes sentidos. Apesar das raízes antigas, na modernidade a autogestão entra em voga mundialmente na década de 1960, denominando a experiência iugoslava de socialismo³. Em meio a uma onda de estudos e debates sobre essa experiência, a agitação civil francesa iniciada em maio de 1968 lançou luz sobre o conceito, associado, em termos gerais, a uma crítica ao poder das instituições. A partir da forte presença no cenário revolucionário daquele país, emerge o hábito de falar e escrever sobre autogestão. Com isso, essa definição passa a ser adotada em diferentes contextos políticos, abarcando muitas compreensões.
Para o PACS, a autogestão é uma estratégia de resistência e afirmação de poder dos sujeitos sociais, entre denúncias e anúncios⁴ de lutas e conquistas. Assim, constitui-se como um instrumento político que cria relações de produção e de sociabilidade, nas quais a horizontalidade e a autonomia são princípios fundamentais. A horizontalidade busca eliminar as hierarquias, ao passo que a autonomia se refere à capacidade de autodeterminação, com livre decisão sobre seus próprios objetivos e meios de luta.
Esta publicação reconhece a importância de olhar para o que foi desenvolvido até aqui e refletir rumo a novos passos, assegurando as referências construídas no passado. Inspiramo-nos no idioma andino aimará⁵, em que o passado está adiante e o futuro, às costas. Foi com base nessa reflexão que esta publicação foi organizada.
Ela está distribuída em quatro capítulos, inaugurada por “Autogestão e território”, que traz um histórico sobre a autogestão no PACS, desde a reflexão sobre conceitos que alicerçam o seu trabalho até a apresentação da conjuntura nacional dos últimos 10 anos, inserindo nesse contexto o Processo Formativo do Autogestão. “Os sujeitos”, capítulo subsequente, revela o que é o Coletivo Autogestão, as coletividades que o compõem e como vem sendo a incorporação delas a esse espaço. Em um terceiro bloco, o coração do conteúdo: “O que é esta metodologia?”. Em tal capítulo se apresentam as temáticas trabalhadas no Processo Formativo do Autogestão. Por fim, uma reflexão sobre “Tarefa-amor”, que traz os aprendizados, tensões e potências identificados ao longo do processo, à medida que se articulam os sentidos políticos da metodologia, evidenciando sua força contra-colonial e reafirmando a urgência de práticas que valorizem os saberes locais e a construção coletiva.
A experiência do Processo Formativo do Autogestão, aqui apresentada, demonstra que resistir também é criar, bem como que metodologias enraizadas nos territórios são determinantes para sustentar processos de transformação que respeitam as singularidades e fortalecem a autonomia das coletividades.
Ao colocar em prática os princípios da autogestão, busca-se um mundo mais justo, em que as relações sejam fundamentadas na solidariedade, na autonomia e no respeito às diversidades. Desejamos que este conteúdo traga movimento a projetos autogestionários que hoje estão no plano do imaginário.
¹ Nomeamos como coletividades o conjunto de movimentos sociais, coletivos, redes e articulações que são nossos parceiros.
² Compreendemos a contra-hegemonia como o conjunto de resistências aos discursos dominantes, acompanhado das lutas para transformação da ordem que está vigente.
³ Autogestão é a tradução literal do termo iugoslavo samoupravlje, em que samo corresponde a “auto” e upravlje equivale a “gestão”, segundo genealogia do conceito construída por Alain Guilerm e Yvon Bourdet (1975).
⁴ Na conceituação do educador Paulo Freire (2000), as denúncias consistem nas violências perpetuadas pela ética do mercado, que não se sensibiliza perante as questões humanas. Os anúncios, em seu turno, congregam as possibilidades de questionar, escolher e sonhar, criando uma vida com dignidade.
⁵ Aimará (em aimará: aymará) é um povo estabelecido desde a Era pré-colombiana nas regiões andinas do Peru, da Bolívia, da Argentina e do Chile. O idioma aimará é falado por mais de 2,5 milhões de pessoas.